terça-feira, 29 de maio de 2012

Sintaxe e amor




AMOR SINTÁTICO...

Era um sujeito assim, assim...
Meio inexpressivo, meio inexprimível.
Acho até que meio oculto.
Diziam os amigos, os poucos, que meio indeterminado,
Vago...

Simpático, às vezes, mas muito implícito em si mesmo.
Gostava de rock’n roll dos anos 60,
Era vilanovense
E mandava flores às suas amadas...
Assim se limitava ao furor do platonismo comedido...

Na verdade, era um tipo inexistente...
Do tipo que ainda manda flores.
Não tinha muitos predicados:
                era alegre,
Ridiculamente alegre...
                Falava pouco,
E no pouco...obscuro.
                Sorria quieto,
Tragicamente irrisório...

Amou Mariazinha, moça faceira, um primor de menina...
Bem criada,
Olhar dissimulado,
Capitulava seus gestos.

Coitado, seu verbo não era intransitivo
E num belo dia Maria necessitou de um complemento...
                indireto.
Começou a gostar de alguém,
Esse alguém a completava totalmente.

O pobre sujeito traído – indiscretamente – continuou displicente.
Mandava presentes,
Numa verbalização direta de sua devoção.
Mandava...
Sonhava...
Pensava...
Amava...
Esperava...

Por fim ela assumiu:
- Eu amo o Joseil!!!
E o caso veio à tona.
Um choque para ele.
Informou-lhe “um conhecido” do ocorrido
Entre sua amada e o chefe da repartição...
O seu mundo ruiu
E junto todos os adjuntos.
Então pensou:
- Somos todos subordinados a essa dor???
(Andréia A.D)

          Vamos brincar com a língua portuguesa, seus elementos, sua gramática, fazer deles o meio de "apimentar" essa relação...Let's go, guys!!!

Com esse texto é possível trabalhar:

1 -  a construção narrativa a partir do uso de recursos específicos, como o jogo de significados dos termos sintáticos. 

Por exemplo

 - os "predicados" de Joseil - o que é o predicado na oração e como esse termo normativo da gramática pode dizer sobre o personagem - o que dizemos sobre ele;
- ele não tinha um "verbo intransitivo" e sua amada o trocou por outro, ela precisou de um complemento para a relação;
- a noção de coordenação e subordinação tanto na sintaxe quanto na composição da situação do personagem;

2 - intertextualidade 
3 - é possível usar o texto para introdução de sintaxe ou mesmo para fazer o fechamento do conteúdo;
4 - uso dos adjetivos para compor as características físicas e psicológicas do personagem;
5 - interpretação textual
6 - o encontro do texto com o texto de Paulo Leminski, "O Assassino era o Escriba";
7 - Estrutura moderna da poesia brasileira.

- Luiza Balnacchio -